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Reunião 35 (Florianópolis, 16 e 17/10/1998)

CARTA DE FLORIANÓPOLIS

O Conselho Técnico Científico do Laboratório Nacional de Redes de Computadores — LARC, reunido em Florianópolis, em 16 e 17 de outubro de 1998, procedeu a uma análise do cenário da Internet no Brasil e resolveu expressar a sua preocupação com o estado atual da Rede Nacional de Pesquisa (RNP) e colocar-se à disposição para propor soluções para a situação atual e para o futuro. Esta reunião deu continuidade à reunião ocorrida no Rio de Janeiro no período de 25 a 28 de maio de 1998, durante o 16o Simpósio Brasileiro de Redes de Computadores (SBRC).

Apesar dos investimentos efetuados pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) desde a sua criação, a Rede Nacional de Pesquisa, espinha dorsal da rede acadêmica, da qual as instituições de ensino e pesquisa dependem para seu acesso à Internet, está atualmente defasada devido à expansão natural do seu uso, estimado em 4.000% nos últimos 3 anos. Estrangulamentos de tráfego interno, tanto na própria rede como na troca de tráfego com outros backbones nacionais, em especial com o backbone da EMBRATEL, bem como no acesso internacional provocam congestionamentos e descarte de tráfego com conseqüente retransmissão das mensagens descartadas o que aumenta ainda mais o grau de congestionamento da rede. Além da precariedade atual do backbone da RNP, preocupa-nos a ausência de perspectivas concretas de superação deste problema, agravada com a perspectiva de cortes devidos ao "ajuste fiscal".

O simples aumento da capacidade instalada, embora imprescindível, não é a única solução. Todo um processo de reavaliação deve ser desencadeado, com vistas à otimização do uso dos recursos instalados. Em particular, deve se considerar a adoção de um esquema mais racional de pontos de troca de tráfego entre os principais backbones nacionais, para evitar distorções nos padrões de tráfego interno neles. Políticas de roteamento, com atenção especial ao tráfego gerado por aplicações de videoconferência e atividades de trabalho cooperativo, devem ser estudadas e planejadas para minimizar a transmissão de dados destinados a múltiplos destinatários.

Considerando que o acesso à Internet é um fator essencial para o desenvolvimento do ensino e pesquisa em todas as áreas e níveis, em especial tendo em vista a crescente demanda e interesse por atividades de educação à distância, foi considerado que é importante e urgente que a rede acadêmica brasileira seja objeto de atenção por parte de diversas esferas de influência face à situação atual e falta de perspectivas de evolução a curto prazo.

Adicionalmente, novas tecnologias de redes de alta velocidade precisam ser disponibilizadas para permitir a disseminação de aplicações distribuídas avançadas, tais como telemedicina, laboratórios virtuais e ambientes de trabalho virtuais compartilhados, que possam servir de suporte para o avanço do ensino e da pesquisa à distância, em todas as áreas do conhecimento. A exemplo do que tem sido desenvolvido no âmbito do projeto Internet 2 nos Estados Unidos e iniciativas semelhantes em outros países, uma nova arquitetura de rede, com novos protocolos e aplicações avançadas está sendo considerada para a Internet acadêmica. O Brasil precisa participar deste processo de forma ativa, ao invés de aguardar definições estabelecidas fora do país.

Neste sentido, foram elaboradas as seguintes sugestões:

Para as Universidades Brasileiras

  • Considerando que a obsolescência e eventual desativação da rede acadêmica brasileira trará prejuízos incalculáveis para a comunidade acadêmica e para as próprias universidades que serão forçadas a contratar serviços de acesso à Internet dos backbones comerciais, cujo custo no Brasil é excessivamente alto, se comparado com similares no exterior.

Sugerimos:

  • adotar uma ação coesa das Universidades, Centros de Pesquisa e Redes Regionais junto ao MCT, MEC e demais órgãos de governo para melhorar as condições de funcionamento da Rede Nacional de Pesquisa e para elaborar o projeto, implantação e operação de uma Rede Nacional de Pesquisa de Alta Velocidade (RNP 2) nos moldes da Internet 2;

  • iniciar programas prioritários visando a formação de recursos humanos para trabalhar em ambiente apoiado por redes.

  • assumir a articulação de uma associação de IESs e IPs (no estilo da UCAID nos Estados Unidos), com objetivo de promover inovações em ferramentas e metodologias de trabalho remoto, inclusive nas áreas de ensino e pesquisa, através do uso de tecnologias de rede de alto desempenho (a chamada Internet 2).

Para o CNPq

  • Considerando que o esforço no sentido de criar condições para o avanço na direção da Internet 2, materializado no edital ProTeM/RNP das Redes Metropolitanas foi muito oportuno e recebeu adesão e participação dos principais grupos de pesquisa na área de redes no país;
  • Considerando que a execução dos projetos aprovados está encontrando dificuldades pelo retardo na liberação dos recursos financeiros e de equipamentos previstos e anteriormente aprovados.

Sugerimos:

  • reforçar iniciativas já em andamento, de instalação das redes metropolitanas de alta velocidade, com o objetivo de prover recursos necessários em tempo hábil.
  • dar continuidade ao apoio à implantação das RMAVs (Redes Metropolitanas de Alta Velocidade) após os 12 meses iniciais dos projetos;
  • ampliar o número de RMAVs em outras localidades;
  • Interligar as RMAVs (Redes Metropolitanas de Alta Velocidade) entre si (bacbone da RNP 2) e na Internet 2;
  • efetuar chamada de projetos multi-institucionais nas áreas de aplicativos e software básico (ex.: "middleware", ensino à distância, telemedicina, etc.).

Para a RNP

  • Considerando que a RNP constitui hoje a espinha dorsal que interconecta as redes acadêmicas estaduais entre si e com os demais backbones existentes no país e no exterior;
  • Considerando que a rede experimenta atualmente um grau de congestionamento em segmentos críticos internos e, principalmente, na sua interconexão com outros backbones.

Sugerimos:

  • revisar imediatamente a topologia da Rede Nacional de Pesquisa a fim de eliminar os pontos de estrangulamento, redimensionando a quantidade e capacidade dos enlaces com base em estatísticas de tráfego e planejamento de capacidade;
  • implementar serviços de apoio à rede: MBONE, hierarquia de cache , etc. nos POPs;
  • atualizar os equipamentos do backbone;
  • incentivar inciativas independentes para monitoração da rede e elaboração de recomendações técnicas;
  • participar junto as IESs e IPs da articulação visando a criação de uma associação nos moldes da UCAID americana.

Para o Comitê Gestor da Internet/BR

  • Considerando que o desenvolvimento da Internet no Brasil constitui um dos objetivos mais importantes do Comitê Gestor;
  • Considerando que o presente momento demanda uma avaliação da estratégia de desenvolvimento da Internet brasileira, que passa pelo fortalecimento de uma rede acadêmica onde são testadas as tecnologias inerentes tanto à atual arquitetura quanto à nova arquitetura e protocolos, Internet 2, que está sendo desenvolvida a nível mundial.

Sugerimos:

  • apoiar uma atividade de planejamento estratégico para a Internet/BR que envolva a comunidade acadêmica e os pesquisadores da área assim como a comunidade responsável pela administração dos backbones Internet hoje existentes;
  • propiciar a criação de um fórum sobre engenharia de redes para discussões técnicas (e padronização) e inserir o Brasil nas discussões relevantes em fóruns internacionais

Para os Governos dos Estados e em especial às Secretarias Estaduais de Ciência e Tecnologia

  • Considerando que o desenvolvimento de redes acadêmicas estaduais é fator determinante no desenvolvimento dos estados, com vistas à formação de recursos humanos para atuar no cenário de trabalho e negócios antevisto para o próximo milênio e propicar oportunidades às novas empresas e à geração de posições de trabalhos no setor de prestação de serviços;

Sugerimos:

  • envidar esforços para provimento de recursos para o fortalecimento, capilarização e desenvolvimento das redes acadêmicas estaduais;
  • participar de forma mais ativa nas esferas de decisão que afetam o suporte à rede acadêmica brasileira;
  • engajar as Entidades de Ensino e Pesquisa no Estado no projeto e desenvolvimento da Internet 2, tanto na sua infra-estrutura quanto nas novas aplicações.

Às novas Operadoras de Telecomunicações no país:

  • Considerando que o desenvolvimento de uma rede acadêmica traz benefícios para os provedores de serviços, em vista do decorrente aumento de demanda estimulada pelo impacto da formação de recursos humanos habituados ao uso de tais facilidades,

Sugerimos:

  • propor alternativas de prestação de serviço e colaboração com a comunidade acadêmica que permitam disponibilizar facilidades de transmissão de dados a custo reduzido para a rede acadêmica;
  • implantar Pontos de Transferência de Tráfego com a RNP;

Para a ANATEL:

  • Considerando que as mudanças ocorridas a partir da transformação do cenário das telecomunicações no Brasil, culminou com a eliminação da tarifa especial e que nenhum outro subsídio foi definido em sua substituição;
  • Considerando que as tarifas praticadas no Brasil, em especial aquelas para o segmento acadêmico são superiores a serviços similares oferecidos para o segmento acadêmico em outros países, mesmo na América do Sul;
  • Considerando o valor estratégico das redes acadêmicas para o desenvolvimento e implantação de tecnologias e aplicações, capacitação e criação de mercados.

Sugerimos:

  • estabelecer uma revisão nas taxas cobradas pelo serviços de transmissão de dados em redes exclusivamente acadêmicas, tendo em vista a recente extinção da tarifa especial prevista no decreto 1589 de 10/8/95 com vistas a buscar soluções que viabilizem a manutenção e expansão da rede acadêmica brasileira;
  • intermediar a negociação entre a comunidade acadêmica e as empresas operadoras visando a otimização da arquitetura/topologia de suporte da RNP e das conexões desta às redes comerciais, para obter uma substancial redução dos custos impostos aos usuários;
  • orientar o Fundo de Universalização para também apoiar o papel da Internet direcionado à educação e outros aspectos sociais.

Para a Academia Brasileira de Ciência e Sociedades Científicas:

  • Considerando que a rede acadêmica brasileira é ferramenta de trabalho relevantes para pesquisadores de todas as áreas de conhecimento;
  • Considerando que a expansão e a própria manutenção e operação da atual Rede Nacional de Pesquisa está em risco face às novas estratégias de ajuste fiscal anunciada pelo governo federal

Sugerimos unir esforços no sentido de pressionar órgãos do governo no sentido de dar continuidade à manutenção, operação e expansão da Rede Nacional de Pesquisa.

Finalmente, dado que o LARC já congrega boa parte das principais instituições de ensino e pesquisa brasileiras, colocamo-nos à disposição para colaborar nas ações propostas acima. Em particular, coerente com os seus objetivos, o LARC poderá envidar esforços para a articulação de convênios, para obter recursos que colaborem com a viabilização da expansão das Redes de Alta Velocidade assim como participar do planejamento e execução de atividades técnicas de interesse a níveis nacional e internacional.

 

CONSELHO TÉCNICO-CIENTÍFICO DO LARC